domingo, 27 de outubro de 2013

UMA REFLEXÃO PARA POUCOS (bem poucos)



Nosso mundo é feito de sombras e imagens. Reflexos pardos, disformes, imprecisos, distantes ecos, não vozes, não sons objetivos, claros, inteligíveis, mas produções de nossos sentidos que se enganam com facilidade, convencendo-se por sombras, deixando-se levar pelo que não é, mas convém.
Acorrentados uns aos outros, de costas para a saída da caverna, fixamos nossos olhos e permitimos que nossas mentes encarceradas descrevam, expliquem, apontem, elucubrem divaguem, decretem sobre as miragens que se movem, os ecos distorcidos que pensamos nascer das paredes, do teto, do chão e a eles dizemos “que assim seja” e, depois, apesar dos pescoços e pés que não se movem por estarem presos, mexemos nossos corpinhos de prisioneiros como quem tem razões para comemorar, uivamos nossas canções, celebrando em resposta a celebração do outro, reagindo como uma manada que segue seu líder.
Desde a caverna de Platão até as nossas, com ar condicionado e controle remoto, a geladeira cheia, o carrão na garagem e o plasma na parede; ou aquelas mal acomodadas, escuras, escassas de tudo, olhando pela janela de vidro, o mesmo plasma iluminado e pago em dezenas de prestações celebradas pelo governo e chamadas de “inclusão”, vemos ali os reflexos do que dizem ser a vida ideal, a meta a ser atingida, o chamado “mundo das celebridades” mortas, acrescentaria eu; ou quem sabe as cavernas de lata, combustível e rodas que carregam gente solitária, vendo sombras através da película escura, o mundo passando pela janela, sem cheiro, sem som, sem vida, recusamo-nos a reconhecer que a história é parcial, as versões pela metade, as explicações nunca se encaixam depois da segunda página.
Mas quem vira a segunda página? E ao virar a segunda segue para a terceira, quarta e depois continua? Quem ouve sem enfado e desatenção o prisioneiro que saiu da caverna e viu-se obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: e ao fazer todos estes movimentos sofreu, e o deslumbramento o impediu por um tempo de distinguir os objetos de que antes via as sombras?
Que tipo de luzes te atraem, que sons lhe cativam, que imagens você vê?
Somos todos habitantes da mesma caverna, então por que você, cego, diz “agora vejo” ou então você, prisioneiro, acusa o vizinho de encarcerado?
Ninguém vê sem sentir a cegueira da luz, as dores do parto, a vertigem da liberdade. Não há saída que não nos exponha, dilacere, questione, nos indique a necessidade de abrir mão de valores, resignificar prioridades, deixar entulhos e esvaziar-se de tantas certezas para só depois reconstruir-se.
Estamos todos na caverna, todos, portanto ajudemo-nos uns aos outros e, se alguém julga enxergar um pouco mais, divida com quem nada vê. Quem ouve algum som, reproduza ao surdo que se entrete com a vibração dos ecos, preocupe-se, importe-se, ilumine-se para que a vida não seja tão escura. Há um preço a pagar, um descrédito a enfrentar, um anti fluxo a seguir. Quem está disposto a sair da caverna? Antes de tudo é preciso reconhecer onde está. 

Flavio Siqueira 


2 comentários:

  1. Oi, Eveline... Adorei a mensagem e o blog... Meu marido e minha prima também estão participando do blog.
    Bjs - Suzana - www.rosachiclets.com.br

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