sábado, 6 de junho de 2015

Mundo que é em mim

Por: Flavio Siqueira 
Não queremos conhecer, queremos crer. Crer é mais fácil. Não há questionamentos, nem dúvidas, nem contradições. É porque é e pronto. Saber – ainda que seja tão pouco – nos revela. Por isso é tão difícil. Mas não posso saber sobre você, sobre o outro, sobre Deus, se antes não souber sobre mim.

Caso contrário tudo o que pensar que sei será projeção amedrontada, será fuga, será mecanismo de defesa. Antes (ame ao próximo como a ti mesmo) preciso me enxergar e pelo menos tentar saber quem sou. O problema é que vivo em constante “estar sendo”, não me sinto pronto, as experiências estão me ajudando a ser, caminho e vou sendo modelado pelo que escolho, sempre. Por isso tudo o que vejo é parcial. Estou aprendendo a ser enquanto vejo um pouco sobre as complexidades que me habitam. Agora não dá mais para simplesmente ser como todos, acreditar como todos, dizer o que todos dizem. Não quero mais um grupo, uma crença ou qualquer coisa que me respalde. Preciso entender o que sou. Olho para dentro e vejo o holocausto. Sou um dos judeus massacrados pelo nazismo. Sou o soldado alemão. Aquele menino com fome na esquina.

Ele me enxerga e não sabe que estou nele, que está em mim, apenas olhando em perspectivas diferentes. Sou o cara armado na esquina, a mulher que chora pelo marido violento, as dores, os encontros, a vida e a morte. Vejo tudo habitando dentro. Deus inclusive. Em mim, em tudo. Deus nas montanhas e Deus no holocausto. Deus no oceano e Deus nas favelas ocupadas pelo tráfico. Deus na criança amorosa, Deus em Bin Laden. Selvagem. Fora do controle de minhas caixinhas que tentam explicações, que querem crer, que fazem de tudo para limitar em previsibilidades o que jamais será previsível. Não posso entender Deus olhando para história. Olhando de perto verei complexidades.

Contradições que me inquietarão para sempre. Sob a luz da consciência as crenças muitas vezes se dissolvem e dói. Precisamos das caixas para nos protegermos da luz que nos revela, machuca os olhos, expões nossas ambivalências. Mas quem permite vasculhar-se aquietará. Saberá que o mundo de fora reflete o de dentro, sempre. Que a humanidade e suas loucuras projetam o que somos. Sou bom e sou mau, sou luz e sou trevas, sou amor e sou loucura, sou selvagem enquanto caminho. Estou sendo. E Deus é em mim.



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