terça-feira, 14 de maio de 2013

Controlar peso é prioridade, diz cardiologista que estudou artérias de múmias



Múmias de milhares de anos submetidas a tomografias computadorizadas revelaram que o entupimento das coronárias está longe de ser um problema exclusivo dos dias atuais.

Mas, para o cardiologista Jagat Narula, um dos autores do estudo publicado em março na revista médica "Lancet", as conclusões não significam um passe livre para fumar cigarros e exagerar na carne.

"Se ficamos surpresos com o resultado? Sim. Mas isso só mostra que, quando o homem passa a ter um suprimento regular de comida, os fatores de risco para doenças cardíacas vêm junto."

As múmias analisadas eram do Egito, do Peru e de civilizações antigas da América do Norte. Em 34% delas foram encontradas artérias entupidas.

Para Narula, que está no Brasil para dar palestra em um evento da Federação Mundial do Coração, nesta sexta (5), no Rio, se as pessoas tivessem de escolher uma só mudança de estilo de vida para evitar doenças crônicas, em especial as cardiovasculares, deveriam se concentrar na perda de peso. "Se você come menos, acaba até ingerindo menos sal."

O que seus achados nas múmias nos mostram sobre os fatores de risco para doenças cardiovasculares?

Jagat Narula - Olhamos múmias de diversas regiões, desde o Egito, onde analisamos múmias que eram de uma elite da época, até a América, onde estudamos pessoas de outras classes sociais, que comiam carne mais magra, peixe, se exercitavam mais. Vimos um pouco mais aterosclerose nos egípcios, mas todos os grupos tinham o problema. Então isso quer dizer que podemos fumar e comer gordura? Não. Ficamos surpresos? Sim. Mas o que percebemos é que nessas populações você já tinha acesso regular aos alimentos. Hoje temos um número enorme de refeições por dia. Quando as pessoas começam a ter acesso a comida de forma regular, ferramentas para caçar, é a hora em que o risco aumenta.

Por que isso acontece?

Nas nossas células, temos as mitocôndrias que fazem o chamado "ciclo de krebs", que gera energia para as células. A natureza criou o ciclo de krebs como uma ferramenta pró-sobrevivência. Tudo o que você come é convertido em energia e o que você não usa é armazenado como gordura. Antes de o homem conseguir ter comida regularmente, chegava sempre um período de fome, no inverno, no qual os animais sumiam, as frutas sumiam, então essa gordura era consumida. Se você tinha gordura, sobrevivia, e depois voltava à estaca zero e começava a acumular tudo de novo. Agora nós coletamos a gordura mas não consumimos. E aí vêm a obesidade, a hipertensão, o derrame, o infarto e até o câncer.

Algumas pessoas usam essas informações para justificar a chamada paleodieta, que tenta imitar a forma como os homens primitivos comiam (muita carne e poucos cereais e carboidratos). Isso faz sentido?

O que conta é a quantidade de calorias que você come. Fazer paleodieta tudo bem, mas quanto você vai comer? O que importa é a quantidade. No paleolítico, você não tinha disponibilidade de comida que temos hoje. Qualquer dieta vai fazer emagrecer se você comer poucas calorias, pode ser chocolate, biscoito. Nozes são ótimas para a saúde, mas um punhado delas pode chegar a 500 calorias. É preciso ver o número de calorias em tudo o que você está comendo.

Como mudar o nosso comportamento?

É preciso priorizar as crianças. Os adultos são incorrigíveis! Se fosse necessário corrigir um só comportamento, o principal é reduzir o peso. No fim, é o mais importante. Se você comer menos, vai acabar ingerindo menos sal por consequência.  

Matéria publicada em portal Folha de S. Paulo


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